sexta-feira, 25 de março de 2016

QUAL A DIFERENÇA ENTRE UM REBELDE E UM REVOLUCIONÁRIO ? - Bhagwan Shree Rajneesh ( OSHO)



Março 25, 2016





Não existe apenas uma diferença quantitativa entre um rebelde e um revolucionário, mas também qualitativa. O revolucionário faz parte de um mundo político. Sua abordagem é pela política. Ele acredita que mudar a estrutura social é o bastante para mudar o homem.

O rebelde é um fenômeno espiritual. Sua abordagem é absolutamente individual. A visão é que, se quisermos mudar a sociedade, teremos de mudar o indivíduo.

A sociedade em si não existe; é apenas uma palavra, como “multidão”, mas ao procurá-la, não vai encontrá-la em lugar algum. Aonde quer que encontra alguém, encontrará um indivíduo. A sociedade é apenas um nome coletivo – apenas um nome, não a realidade – sem nenhuma substância. O indivíduo tem uma alma, tem uma possibilidade de evolução, de mudança, de transformação. Por isso a diferença é enorme.

O rebelde é a própria essência da religiosidade. Ele traz ao mundo uma mudança de consciência – e se a consciência muda, a estrutura da sociedade pode acompanhá-la. Mas a recíproca não é verdadeira – e isso ficou provado por todas as revoluções, pois todas falharam.

Nenhuma revolução conseguiu mudar o homem; mas parece que o homem não sabe disso. Ele continua pensando em termos de revolução, de mudar a sociedade, de mudar o governo, a burocracia, de mudar as leis, os sistemas políticos. Feudalismo, capitalismo, comunismo, socialismo, fascismo – todos eles são revolucionários a seu próprio modo. Todos deram errado, e muito, porque o homem permaneceu o mesmo.

Um Gautama Buda, um Zaratustra, um Jesus – essas pessoas são rebeldes. A confiança deles está no indivíduo. Também não obtiveram sucesso, mas o fracasso deles é totalmente diferente do fracasso do revolucionário. Os revolucionários tentaram sua metodologia em muitos países, de muitas maneiras, e falharam. Mas um Gautama Buda não falhou por não ter sido testado. Jesus não falhou por não ter sido testado. Jesus não falhou porque os judeus o crucificaram e os cristãos o enterraram. Ele não foi testado; não teve uma chance. O rebelde ainda é uma dimensão inexplorada.

Temos de ser rebeldes não-revolucionários. O revolucionário pertence a uma esfera muito mundana. O rebelde e a rebeldia são sagrados. O revolucionário não pode ficar sozinho; ele precisa de um grupo, de um partido político, de um governo. Ele precisa de poder, e o poder corrompe – e o poder absoluto corrompe completamente.

Todos os revolucionários que conseguiram deter o poder foram corrompidos por ele. Não conseguiram mudar o poder e suas instituições; o poder os mudou, mudou sua forma de pensar e os corrompeu. Apenas os nomes ficaram diferentes; a sociedade permaneceu a mesma. A consciência do homem não evolui a séculos. Apenas, de vez em quando, um homem aparece, mas entre milhões de pessoas o surgimento de um homem não é uma regra, é uma exceção. E como ele está sozinho, a multidão não o tolera. Ele se torna um tipo de humilhação para a multidão; sua simples presença se torna uma ofensa, porque ele abre os olhos das pessoas, as torna conscientes de seu potencial e de seu futuro. E machuca o ego o fato de que não fizemos nada para crescer, para sermos mais conscientes, mais amorosos, extasiantes, mais criativos, mais quietos – para deixarmos bonito o mundo ao nosso redor. Não contribuímos com o mundo, nossa existência não tem sido uma benção, mas uma maldição. Nós mostramos nossa raiva, nossa violência, nossa inveja, nossa competitividade, nosso desejo pelo poder. Tornamos o mundo um campo de batalha; temos sede de sangue e deixamos os outros sedentos de sangue. Impedimos a humanidade de ser humana. Ajudamos os homens a agirem de modo subumano, às vezes como animais. É por isso que um Gautama Buda, um Kabir ou um Chuang Tzu ferem, porque eles brotaram, e você está aí, parado. A primavera vai e vem e nada brota em você; nenhum pássaro vem e faz o seu ninho perto de você, ou canta ao seu redor. É melhor crucificar um jesus e envenenar um Sócrates – apenas para eliminá-los – para que você não tenha que se sentir espiritualmente inferior de nenhuma maneira.

O mundo conheceu apenas alguns rebeldes.

Mas agora é o momento: se a humanidade se mostra incapaz de produzir um grande número de rebeldes, um espírito rebelde, então nossos dias na Terra estão contados. Então, este século pode representar o nosso fim; estamos nos aproximando muito desse ponto.

Temos de mudar nossa consciência, criar mais energia meditativa no mundo, criar mais carinho. Temos de destruir o homem antigo e sua feiura – suas ideologias podres, suas discriminações estúpidas, suas superstições idiotas – e criarmos um novo homem com olhos novos, com novos valores. Uma descontinuidade com o passado – esse é o sentido da rebeldia.

Essas três palavras ajudarão você a entender…

Reforma significa modificação. O velho permanece, você dá a ele uma nova forma, um novo formato – um tipo de restauração de um prédio antigo. A estrutura original continua; você a renova, a limpa, faz algumas janelas, algumas portas.

A revolução vai mais fundo do que a reforma. O velho permanece, porém, mais mudanças são introduzidas, mesmo em sua estrutura básica – não apenas mudando sua cor e abrindo algumas portas e janelas, mas talvez construindo outros pisos, fazendo com que fique mais alto. Mas o velho não é destruído; ele permanece escondido atrás do novo. Na verdade, permanece sendo o cimento do novo.

A revolução é uma continuidade do velho. A rebeldia é uma descontinuidade. Não é reforma e não é revolução; é simplesmente desconectar-se a si mesmo de tudo que é antigo; as antigas religiões, as antigas ideologias políticas, o homem antigo – de tudo que é antigo você se desconecta. Você começa uma nova vida, passada a limpo. E, a menos que preparemos a humanidade para começar a vida outra vez – uma ressurreição, uma morte do velho e um nascimento do novo…

É muito importante lembrar que no dia em que Gautama Buda nasceu, sua mãe morreu. Enquanto ele deixava o ventre, sua mãe deixava a existência. Talvez esse tenha sido um fato histórico, pois ele foi criado pela irmã da mãe – não chegou a conhecer sua mãe. E agora se tornou uma idéia comum no budismo que, sempre que um buda nasce, sua mãe morre no mesmo momento; sua mãe não consegue sobreviver. Eu vejo isso como uma indicação muito simbólica e importante. Quer dizer que o nascimento de um rebelde é a morte do velho.

O revolucionário tenta mudar o velho; o rebelde simplesmente surge do velho, assim como a cobra deixa a sua pele antiga e não olha pra trás. A menos que criemos pessoas rebeldes no mundo, o homem não tem futuro. O homem antigo levou a sua raça à morte. É a mente antiga, as ideologias antigas, as religiões antigas – todas elas se juntaram para causar essa situação de suicídio global. Apenas um novo homem pode salvar a humanidade neste planeta, e a bela vida deste planeta.

Eu ensino a rebeldia, não a revolução. Para mim, a rebeldia é uma qualidade essencial de um homem religioso. É a espiritualidade em sua absoluta pureza.

Os dias de revolução terminaram. A Revolução Francesa fracassou, a Revolução Russa fracassou, a Revolução Chinesa fracassou.

Na Índia, vimos a revolução gandhiana falhar, e falhou diante dos olhos de Gandhi. Gandhi ensinou a não-violência durante sua vida toda e, diante de seus olhos, o país foi dividido; milhões de pessoas foram mortas, queimadas vivas; milhões de mulheres foram estupradas. Gandhi foi morto a tiros. É um fim estranho para um santo não-violento. E ele mesmo esqueceu todos os seus ensinamentos. Antes de sua revolução acontecer, um pensador norte-americano, Louis Fischer, perguntou a ele: “O que você vai fazer com as armas, os exércitos e todos os armamentos quando a Índia se tornas um país independente?” Gandhi respondeu: “Vou jogar todas as armas ao mar e mandar os exércitos para trabalhar nos campos e jardins.” Louis Fischer perguntou: “Mas, você se esqueceu de que alguém pode invadir seu país?” Gandhi disse: “Nós daremos as boas-vindas a ele. Se alguém quiser invadir nosso país, nós o aceitaremos como um convidado e diremos: “Você também pode viver aqui, assim como vivemos. Não é preciso brigar.”

Mas ele se esqueceu completamente de sua filosofia – é assim que as revoluções falham. É muito bonito falar sobre essas coisas, mas quando o poder passa para suas mãos… primeiro, Mahatma Gandhi não aceitou nenhum cargo no governo. Foi por medo, por que como ele responderia ao mundo todo? E quanto a jogar as armas ao mar? E quanto a mandar os exércitos para trabalhar nos campos? Ele fugiu da responsabilidade pela qual ele lutou a vida inteira, vendo que isso criaria grandes transtornos a ele; teria de contradizer sua própria filosofia.

Mas o governo era formado por seus próprios discípulos, escolhidos por ele. Ele não pediu a eles que dissolvessem os exércitos, pelo contrário. Quando o Paquistão atacou a Índia, ele não disse ao governo Indiano: “Podem ir à fronteira recepcionar os invasores como convidados.” Em vez disso, ele abençoou os primeiros três aviões que foram bombardear o Paquistão. Os aviões sobrevoaram o vilarejo no qual ele estava, em Nova Délhi, e ele saiu no jardim para abençoá-los. E com essa benção, eles partiram para destruir sua própria gente, que dias antes eram seus irmãos e irmãs. Sem o menor pudor, sem perceber a contradição.

A Revolução Russa falhou diante dos olhos de Lenin. Ele estava pregando de acordo com Karl Marx, que “quando a revolução acontecer, dissolveremos o casamento, porque o casamento é parte de uma propriedade privada; se a propriedade privada acabar; o casamento também vai acabar. As pessoas podem ser amantes, podem viver juntas; as crianças serão cuidadas pela sociedade.”

Mas, quando a revolução deu certo, ele viu a magnitude do problema: cuidar de tantas crianças… quem ia cuidar das crianças? E quanto a dissolver o casamento… pela primeira vez, ele viu que a sua sociedade depende da família. A família é uma unidade básica – sem a família, sua sociedade será dissolvida. E isso será perigoso – seria perigoso criar uma ditadura do proletariado, porque as pessoas serão mais independentes se não tiverem responsabilidades com a família.

Você pode perceber a lógica. Se as pessoas tiverem as responsabilidades com as esposas, com os pais idosos, com os filhos, elas ficarão tão carregadas que não poderão ser rebeldes. Elas não podem ir contra o governo, terão muitas responsabilidades. Mas se não tiverem responsabilidades, se os idosos forem cuidados pelo governo – como prometeram antes da revolução – se as pessoas forem cuidadas pelo governo e se elas puderem viver juntas durante o tempo que se amarem, elas não precisam ter permissão para se casar, não precisam de divórcio; isso é assunto pessoal delas e o governo não tem o direito de interferir…

Mas ao saber que o poder estava nas mãos do partido comunistas e que Lênin era o líder, tudo mudou. Uma vez que o poder recai em suas mãos, as pessoas começam a pensar de modo diferente. O pensamento era que, deixar as pesssoas independentes de responsabilidades, é perigoso – elas ficarão muito individualistas. Portanto, mantenha-as sobrecarregadas com a família. Elas continuarão escravas de pais idosos, de uma esposa doente, dos filhos e da educação que eles precisam receber. Elas não terão tempo e coragem para se voltar contra o governo de maneira alguma. A família é uma das maiores armadilhas que a sociedade tem usado por milênios para escravizar um homem. Lênin deixou para trás todas as idéias de desfazer as famílias. É estranho o modo com que as revoluções falharam. Elas falharam nas mãos dos revolucionários, pois uma vez que o poder chega às mãos deles, eles começam a pensar de maneira diferente.

E se tornam muito presos ao poder. E o esforço que eles fazem é para deter esse poder para sempre, para manter as pessoas escravizadas.

O futuro não precisa de mais revoluções. O futuro precisa de uma nova experiência que ainda não foi testada. Embora há milhares de anos existam rebeldes, eles permaneceram sozinhos – indivíduos. Talvez o tempo não estivesse amadurecido para eles. Mas agora, o tempo não só está maduro… se eles não se apressarem, o tempo chegará ao fim. Até o final deste século, ou o homem desaparecerá, ou o novo homem com uma nova visão aparecerá na Terra. Ele será um rebelde.


Do Livro :  O Convidado ( The Guest ) - ano 1979 - Capítulo 2 - de Bhagwan Shree Rajneesh ( OSHO)







Postagem : Mostradores da Luz






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